O monsenhor polonês Slawomir Oder acaba de lançar, na Itália, a biografia do Papa João Paulo II (Por que um Santo?), na qual defende a canonização de Karol Wojtyla. Segundo o conceituado autor, o papa possuía um cinto com o qual se açoitava quando estava só e costumava dormir no chão, com o intuito de penitencia-se.
Esse tipo de penitência é chamado ascese, corrente oriunda de uma vertente mística do catolicismo, que admite ser o sofrimento uma prova de aproximação do fiel ao martírio de Cristo, como uma forma radical de expurgar os pecados, especialmente aqueles inconfessáveis.
Ora, não tenho a intenção de criticar tão nobre intento, uma vez que o monsenhor Oder pretende honrar postumamente um homem que, em vida, teve o reconhecimento do mundo inteiro de ter sido uma pessoa bondosa e uma liderança forte e carismática, principalmente no meio católico. Também não pretendo fazer loas a quem certamente delas não precisa.
O que gostaria de externar é que a defesa de canonização por tal via de argumentação não deve fazer jus ao Papa João Paulo II, reconhecido e reverenciado pelo catolicismo (assim como os outros papas) como o “Vigário de Cristo” na terra. Porque Karol Wojtyla era um homem que, do alto de sua posição sacerdotal e do sobejo conhecimento teológico adquirido em longos anos de intenso estudo das Escrituras, tinha conhecimento pleno a respeito da obra expiatória de Cristo no Calvário.
Assim, o papa tanto conhecia a Bíblia que, em sua Encíclica “Fides et Ratio”, de 14/09/1998, endereçada aos Bispos da Igreja Católica sobre as relações entre Fé e Razão, escreveu:
“Na base de toda a reflexão feita pela Igreja, está a consciência de ser depositária duma mensagem, que tem a sua origem no próprio Deus (cf. 2 Cor 4, 1-2). O conhecimento que ela propõe ao homem, não provém de uma reflexão sua, nem sequer da mais alta, mas de ter acolhido na fé a palavra de Deus (cf. 1 Tes 2, 13).”
Em sua primeira Encíclica, de 04/03/1979, cujo nome era “Redemptor Hominis”, que trata do mistério da Redenção em Cristo, ele escreve enfaticamente:
“A Igreja, que não cessa de contemplar o conjunto do mistério de Cristo, sabe com toda a certeza da fé, que a Redenção que se verificou por meio da Cruz, restituiu definitivamente ao homem a dignidade e o sentido da sua existência no mundo, sentido que ele havia perdido em considerável medida por causa do pecado. E por isso a Redenção realizou-se no mistério pascal, que, através da cruz e da morte, conduz à ressurreição.”
Desse modo, como poderia o próprio papa negar o que escrevera? Ele que afirmou crer na Palavra de Deus e na Redenção efetuada por Cristo, voltar-se-ía aos sacrifícios punitivos pelos seus próprios pecados? Não tem cabimento.
O papa, com certeza, sabia que Jesus havia efetuado um sacrifício único e suficiente, como está escrito: “Com efeito, nos convinha um sumo sacerdote como este, santo, inculpável, sem mácula, separado dos pecadores e feito mais alto do que os céus, que não tem necessidade, como os sumos sacerdotes, de oferecer todos os dias sacrifícios, primeiro, por seus próprios pecados, depois, pelos do povo; porque fez isto uma vez por todas, quando a si mesmo se ofereceu” (Hebreus 7.26,27).
O papa sabia que não caberia mais nenhuma penitência, nem sacrifícios de animais, e que a redenção era eterna, como está escrito: “Não por meio de sangue de bodes e de bezerros, mas pelo seu próprio sangue, entrou no Santo dos Santos, uma vez por todas, tendo obtido eterna redenção” (Hebreus 9.12).
O papa sabia que Deus tinha nos santificado “mediante a oferta do corpo de Jesus Cristo, uma vez por todas” (Hebreus 10.8-10). Sabia também que Jesus é o único Salvador, pois “não há salvação em nenhum outro; porque abaixo do céu não existe nenhum outro nome, dado entre os homens, pelo qual importa que sejamos salvos” (Atos 4.12).
Tudo isso, e muito mais, Karol Wojtyla defende nas catorze Encíclicas que escreveu e publicou, cujos textos são conhecidos como documentos teológicos oficiais da Igreja Católica.
Não quero ofender a ninguém, mas prefiro acreditar na ortodoxia do papa, na coerência do que escreveu, e que, contrariamente ao dito na sua biografia, ele não se mutilava; antes, cria Naquele que foi “Mutilado por todos nós”.
E que me perdoe o monsenhor Slawomir Oder, embora a sua intenção seja nobre. Mas afirmar que Karol Wojtyla se mutilava, vai de encontro a um princípio basilar da teologia cristã, defendida pelo próprio papa: que “a graça de Deus se manifestou salvadora a todos os homens (...) a fim de remir-nos de toda iniqüidade e purificar, para si mesmo, um povo exclusivamente seu, zeloso de boas obras” (Tito 2.11-14).
Desta vez darei razão ao papa, se é que não se mutilava. Como ele não está aqui para defender-se, prefiro acreditar, a seu respeito, a partir do que ele próprio escreveu ao longo da vida.
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Samuel Câmara
Pastor da Assembleia de Deus em Belém






