Há pessoas que, em sua relação com a religião, simplesmente levam as coisas do seu jeito e, sem nenhuma cerimônia, brincam com Deus, pensando que podem manipulá-lo a seu bel prazer e de acordo com suas necessidades. Há aqueles que confiam em Deus, e isso lhes basta, a despeito de qualquer enfrentamento na vida. A diferença entre os dois parece simples, e certamente é mesmo, mas na maioria das vezes vem encoberto por uma camada de verniz religioso com um odor de espiritualidade que acaba por confundir os incautos e desavisados.

Bem, vamos ilustrar isso melhor. Há alguns anos, eu tomei conhecimento a respeito de um popular ministro do evangelho que prometia bênçãos a quem estivesse interessado a pagar por elas, tudo em suaves prestações. Por incrível que pareça, ele oferecia bênçãos anuais “garantidas” por algumas centenas de reais à vista. Para os menos afortunados que quisessem suas orações “certeiras”, deveriam preencher um cupom e habilitar-se a pagar suaves prestações de algumas dezenas de reais por mês, durante um ano inteiro.

Se a pessoa viesse a confirmar que suas orações já haviam trazido recompensas financeiras e a solução de seus problemas, aquele “líder” prometia enviar um “Certificado de Bênção”, após receber o primeiro pagamento, e uma “carteira ungida”, com o segundo pagamento. Vale ressaltar que nesse negócio não havia “satisfação garantida ou seu dinheiro de volta”.

Não parece nem um pouco absurdo, em nossos dias, todo tipo de negociatas em nome de Deus, encabeçadas por pessoas que se autodenominam “apóstolo” ou “bispo” ou “pastor”, esteja tão em voga. É claro que nem tão explícitas como no exemplo acima, mas veladas e igualmente perniciosas. Esses líderes são capazes de tirar o seu último centavo, mesmo que depois fiquem a esbravejar que o recebimento das tais desejadas bênçãos dependa exclusivamente da sua fé. Se você não recebeu nada, então é porque a sua fé foi fraca ou pequena.

Esse tipo de joguete com Deus e com a boa fé das pessoas só prospera porque há um “mercado” crescente de pessoas carentes e frustradas, financeiramente quebradas e espiritualmente desamparadas, que anseia por mudar de vida, mesmo que tenha de pagar caro por isso. Essas pessoas acham que tudo se resolve por meio de uma “oração forte” e de uma simples troca de favores com Deus, um “toma-lá-dá-cá” que os habilita a serem abençoadas.

O fato é que muitas pessoas esquecem que não se pode colocar Deus numa caixa e manipulá-lo. Elas se esquecem que Deus mostra ao mundo Seu poder sobrenatural conforme Sua própria vontade, não a nossa. E tudo o que Deus requer é que as pessoas confiem Nele, pois é Fiel e Verdadeiro, as ama e quer abençoá-las gratuitamente.

De maneira simples, confiar em Deus pressupõe dar-lhe uma ocasião, e isso equivale a oferecer-lhe um ensejo.

Por exemplo, quando alguém sente uma dor violenta, geralmente vai ao médico, que faz o diagnóstico do mal e sugere o meio de extirpá-lo. É grande aventura entregar-se nas mãos de outrem; no entanto, o cirurgião obtém sua oportunidade pela confiança que lhe foi depositada.

Imagine um viajante que pretende chegar com urgência a certo lugar, e uma companhia aérea lhe comunica que um determinado voo o conduzirá à cidade desejada com maior rapidez. O viajante, embora não conheça o piloto nem a rota a seguir, e também nada saiba da complicada operação da aeronave, embarca, confiando inteiramente, dando-lhe, assim, uma ocasião.

As pessoas confiam no cirurgião e na companhia aérea, e assim, ambos têm a sua oportunidade. De igual modo, quando confiamos em Deus e nos entregamos nas Suas mãos, estamos a conceder-lhe a ocasião para sermos abençoados. Deus é Fiel, Justo e Poderoso, Gracioso e Abençoador, e pode perfeitamente nos conduzir para a melhor situação conforme a Sua boa, agradável e perfeita vontade (Rm 12.2).

Desse modo, por que tantas pessoas ainda são enganadas? Obviamente essa disposição humana de querer resolver seus problemas num abrir e fechar de olhos, sem precisar confiar em Deus, não é algo novo. Isso vem desde Caim, filho de Adão e Eva. Agora, em um mundo onde um simples clique resolve muitas coisas, transcender isso para a religião é um passo.

Não é só um erro tentar fazer negociata de qualquer tipo com Deus, é algo mais grave: é brincar com Deus! Você pode imaginar o Senhor Jesus, ou os apóstolos, prometendo bênção às pessoas em troca de uma contribuição para Seu ministério? Jesus dizia: “De graça recebestes, de graça daí” (Mt 10.8).

Alguns estão dispostos a pagar algum dinheiro para obter bênçãos. Outros pagam de outros modos. Há um número considerável de crentes sinceros e dispostos a crer que se obedecerem a Deus completamente – só porque um “homem de Deus” fala “em nome de Deus” –, então o resultado será uma vida mais tranquila, ou mais próspera. E quando assim se dá, isso é prova suficiente de estarem cumprindo a vontade de Deus.

Do contrário, se enfrentam problemas, ficam propensos a concluir que em suas atitudes corriqueiras não estão cumprindo a vontade de Deus. Em vez de questionarem seus parâmetros, questionam a sua dedicação e, às vezes, sua fé ou até mesmo o próprio Deus.

É um erro acreditar que se alguém obedece a Deus, tudo dará certo na sua vida. Nem sempre Deus remove as dificuldades; antes, Ele as usa para o nosso bem e para Sua glória. Na verdade, confiar e servir a Deus significa “andar com Ele”, mesmo quando as coisas dão errado (Hc 3.17-19).

De fato, “sabemos que todas as coisas – boas ou más – cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito” (Rm 8.28).

         Sendo assim, jamais brinque com Deus; mas confie Nele, ame-o e sirva-o com fidelidade. E a vitória virá no tempo de Deus!

 

Samuel Câmara

Pastor da Assembleia de Deus em Belém