Colombina, Pierrot e Arlequim são figuras icônicas do Carnaval, especialmente criadas pela “Commedia dell Arte italiana” no Século XVI, cujas encenações tentavam ironizar a vida e os costumes dos poderosos de então. Colombina era o pivô de um triângulo amoroso “carnavalesco” que ficaria famoso no mundo todo. Ela era a criada de uma filha do patrão Pantaleão (que representavam a elite da sociedade, um tirano avarento e galanteador desajeitado), mas tão bela e refinada quanto sua ama.

Seus pretendentes eram também excêntricos. De um lado, o apaixonado Pierrot, uma figura ingênua, sentimental e romântica. Muito pobre, vestia-se de roupas feitas de sacos de farinha, pintava o rosto de branco e não usava máscara. Ele sofria e suspirava de amor pela Colombina. Do outro lado, estava Arlequim, um espertalhão preguiçoso e insolente que, debochado, adorava pregar peças nos outros personagens e depois usava sua agilidade para escapar das confusões criadas.

Colombina, a serviçal bela e refinada, era a figura da indecisão, que se aproveitava dos dois amores a seu bel prazer ou quando conveniente, querendo dar a alma a Pierrot (figura do amor puro e verdadeiro) e o corpo a Arlequim (que tipificava a paixão repentina e arrasadora). Pierrot e Arlequim acabam sendo estereótipos das projeções da alma hesitante e conturbada de Colombina. Com efeito, Columbina não sabia que ninguém pode servir a dois senhores, tampouco a dois amores. Porque, como disse Jesus, ou havia de aborrecer-se de um e amar ao outro, ou se devotaria a um e desprezaria ao outro (Mt 6.24). Desse modo, ela não passava de uma alma dividida e conturbada, totalmente consumida pela indefinição.

No Carnaval, especialmente, o efeito Colombina se manifesta de um modo muito mais efetivo em alguns que se dizem “cristãos”. Estes não sabem se decidir entre expressar o amor verdadeiramente compromissado com o Senhor Jesus Cristo e viver uma repentina e avassaladora paixão pelos prazeres do mundo. Alguns causam espanto e escândalo por causa desse mau proceder.

Dentre os cristãos, algumas “celebridades evangélicas” famosas e de coração dividido, tal como Colombina, desfilarão nas passarelas, enquanto alguns “cristãos” anônimos não resistirão e, igualmente, cairão na folia. Não é sem razão que o nome do Senhor Jesus continuará sendo blasfemado.

O Senhor Jesus, certa feita, sentindo-se incomodado por situação semelhante, se pronunciou desafiadoramente no conhecido Sermão do Monte: “Acautelai-vos dos falsos profetas, que se vos apresentam disfarçados em ovelhas, mas por dentro são lobos roubadores. Pelos seus frutos os conhecereis. Colhem-se, porventura, uvas dos espinheiros ou figos dos pés de urtiga? Assim, toda árvore boa produz bons frutos, porém a árvore má produz frutos maus. Não pode a árvore boa produzir frutos maus, nem a árvore má produzir frutos bons. Toda árvore que não produz bom fruto é cortada e lançada ao fogo. Assim, pois, pelos seus frutos os conhecereis” (Mt 7.15-20).

Quando Jesus comparava a vida humana com uma árvore frutífera, chamava a atenção para o perigo de nos deixarmos enganar pelas aparências, isto é, o perigo de alguém parecer um cristão, seja católico ou evangélico, sem verdadeiramente sê-lo. A diferença entre o verdadeiro e o falso seria conhecida pelo fruto bom ou mau que o seu comportamento viesse a produzir. Sempre há quem tente se passar por cristão, pelo simples fato de polir a sua vida pessoal com algum verniz religioso, ao invés de tornar-se uma nova criatura, ancorado só no fato de conseguir encenar certos trejeitos da religiosidade cristã e expressar uma linguagem cristã de conveniência.

Assim como o fruto identifica a árvore, o comportamento atesta o caráter de uma pessoa. O que uma pessoa realmente é, de fato, mais cedo ou mais tarde será revelado em suas atitudes e ações na vida comum. Um cristão, católico ou evangélico, pode até falar de modo correto, agir e viver aparentemente da maneira certa, mas, no fundo, pode ser um “falso profeta”. Em suma, um dia a máscara cai. Como disse Jesus: “Nada há oculto, que não haja de manifestar-se, nem escondido, que não venha a ser conhecido e revelado” (Lc 8.17).

Esse tipo de “cristão” que vive o conflito existencial de Colombina de “amar a dois senhores” é mais inimigo da cruz de Cristo e, portanto, muito mais perigoso à fé cristã do que aqueles que amam o mundo porque não conhecem outra coisa, ou os que perseguem aberta e injustamente os cristãos por ignorância ou intolerância religiosa. A mensagem de Jesus é clara: se não houver mudança interior através do novo nascimento, não haverá salvação (Jo 3.3).

Quando Colombina tira a máscara, ela também descobre que caiu na cilada da indecisão, e seu verdadeiro caráter é revelado. Assim também ocorre com o cristão nominal, no qual se cumpre este vaticínio: “Com eles aconteceu o que diz certo adágio verdadeiro: O cão voltou ao seu próprio vômito; e: a porca lavada voltou a revolver-se no lamaçal” (2 Pedro 2.22).

Havia uma Colombina Samaritana de muitos amores, que tivera cinco maridos e o atual não era dela, mas cujo encontro com Jesus mudou radicalmente sua vida (Jo 4.5-14). E assim como Jesus disse àquela Colombina Samaritana, diz a cada um hoje: “Quem beber desta água (do Carnaval) tornará a ter sede; aquele, porém, que beber da água que eu lhe der nunca mais terá sede; pelo contrário, a água que eu lhe der será nele uma fonte a jorrar para a vida eterna”.
Samuel Câmara
Pastor da Assembleia de Deus em Belém