O filósofo alemão Friedrich Nietzsche espantou o mundo ao conseguir perscrutar o interior da alma do nosso século e, consequentemente, desmascarar a seu modo o Cristianismo europeu, que para ele era uma invenção do apóstolo Paulo, não de Jesus Cristo. No seu livro A Gaia Ciência (1882), no famoso aforismo intitulado O Louco, Nietzsche indagou: “Onde está Deus?” — e respondeu tacitamente: “Eu lhes direi, nós o matamos! Você e eu! Todos nós somos seus assassinos!”.

Nietzsche ficara muito irritado pelo fato de os ocidentais ainda não terem conseguido sondar as consequências devastadoras da “morte de Deus”.

Porém, o que significaria essa suposta “morte de Deus”? Por óbvio, o significado mais importante é simplesmente que a religião em geral, e o Cristianismo em particular, no Ocidente, estariam experimentando um declínio inexorável e irreversível. Teria, portanto, perdido o lugar central que mantivera até então, e isso em todas as esferas: ciência, economia, política, filosofia, literatura, arte, música, educação, assim como na vida social e religiosa dos indivíduos.

A morte de Deus, para Nietzsche, significava que nossa cultura estava se tornando cada vez mais secularizada, uma vez que a revolução científica oferecia agora uma maneira definitiva de compreender os fenômenos naturais, tendo se mostrado mais clara e infinitamente superior à tentativa de compreender a natureza pelos pressupostos religiosos e princípios exarados nas Escrituras.

Embora não fique claro se Nietzsche queria dizer isso, certamente ficou entendido mais claramente pela sociedade de seu tempo o pressuposto de que a crença em Deus, uma vez totalmente abandonada, consequentemente deveria também ser rejeitada a ideia bíblica de moralidade e do significado da vida.

O problema é que se Deus é excluído da nossa vida, as alternativas que restam são a do humanismo secular, ou seja, de que não temos nada superior a nós mesmos, e a da Evolução, de que todos nós viemos de uma bactéria primordial, e depois, de simples primatas. Logo, não teríamos nenhuma obrigação de viver sob os preceitos e princípios escriturísticos, e assim, nada nos impediria de viver ao nosso bel prazer e de fazer tudo o que quisermos.

Entre outras coisas, isso leva inevitavelmente à arbitrariedade do poder do forte sobre o fraco, à banalização da vida, à violência, ao crime, à corrupção, à liberalidade e promiscuidade sexual, e também a muitos outros detestáveis pecados. Não teríamos ninguém superior ao homem a quem prestar contas, pobres mortais destinados a uma sepultura fétida que encerraria para sempre nossa história.

Decerto, embora não seja possível matar Deus, como fruto dessa filosofia niilista, nós vivemos numa era pós-cristã, em um mundo pós-moderno, sob o corolário da pós-verdade.

Quando dizemos pós-cristã, não estamos querendo afirmar que as pessoas não mais professam ser cristãos ou que não frequentem mais a igreja, pois a maioria faz ambas as coisas. Antes, pós-cristã refere-se ao fato de que a maior parte das culturas ocidentais não mais confia nas verdades cristãs como a base de sua ética pública ou de seu senso de moralidade.

A pós-modernidade é a resistência cabal não somente às reivindicações de verdades cristãs, mas a qualquer tipo de reivindicação da verdade, reduzindo todas as ideias a meras elaborações sociais formadas por classe, gênero e etnia.

A pós-verdade, cuja expressão foi criada pela Universidade de Oxford, é uma filha ilegítima desses dois “transgêneros filosóficos” por inseminação amoral. A pós-verdade diz respeito às circunstâncias nas quais fatos objetivos têm menos importância do que os apelos à emoção e às crenças pessoais, tendo menos influência em moldar a opinião pública do que estes.

Por causa desse vazio filosófico e moral, pela exclusão de Deus das nossas culturas e da vida, procura-se cobrir esse fosso existencial e espiritual com imitações de deuses afeitos aos nossos próprios caprichos, mesmo que os chamem de “ciência” e “ateísmo”. Em decorrência, é comum que alguns “inoculados” dessa virose moral professem um cristianismo sem Cristo, busquem uma redenção sem sangue, sigam um discipulado sem cruz, vivenciem um Pentecostes sem Espírito Santo, professem uma religião sem espiritualidade nem compromisso moral e ético.

Assim, entra particularmente em cena uma religião cristã densa de privilégios e isenta de responsabilidades. Fabrica-se, em suma, um Cristianismo sem Deus e, portanto, socialmente inócuo. Inventa-se uma santidade de mosteiro para poucos, cujas expressões de vida são “sal do sal” e “luz da luz”, que não salgam nem iluminam, enquanto a maioria do povo continua publicamente numa vida sem ter temor de Deus e sem mostrar valor para Deus.

Essa santidade de exclusão da normalidade da vida é uma negativa do princípio cristão de que a possibilidade de ser santo é gestada no dia a dia do burburinho da vida. Por isso Jesus orou ao Pai: “Não peço que os tire do mundo; e, sim, que os guardes do mal” (Jo 17.15).

Uma religião sem Deus, qualquer que seja ela, parte indubitavelmente para a criação de deidades diversificadas, desembocando na sua forma mais tola, a de fabricar ídolos pelas mãos dos próprios homens, numa negação do Criador, que disse: “Não terás outros deuses diante de mim. Não farás para ti imagem de escultura…” (Êxodo 20.3,4).

Quando falta o temor de Deus, as famílias se deterioram, os legisladores são passíveis de elaborar leis injustas, o crime e o banditismo se tornam realidades presentes e assustadoras, grassa a corrupção na vida política, a beleza da vida é diminuída e os pobres são mais injustiçados e excluídos.

O Brasil precisa de Cristo, não de um Cristianismo como religião de mortos-vivos, cuja fé é a própria negação da vida do Filho de Deus. E se o Brasil precisasse de um Cristianismo, só precisaria de um que fosse sinônimo de Evangelho de Cristo. Do contrário, tudo o que terá é a expressão de uma religiosidade que daria sobeja razão a Friedrich Nietzsche em decretar a morte de Deus. Mas Nietzsche errou feio: Deus está vivo! E Nietzsche está morto!

 

Samuel Câmara

Pastor da Assembleia de Deus em Belém