Na vida, sempre ouvidos dizer que devemos ficar de olhos bem abertos, e por diversas razões: para não sermos enganados, para não tropeçarmos, para acharmos soluções de problemas, enfim, para vivermos uma vida melhor e mais relevante.
 
Isso me faz lembrar de uma espécie de peixe muito estranha e nativa da região amazônica que é chamada popularmente de “tralhoto” ou “quatro-olhos”. Vivendo no delta do rio Amazonas e adjacências, fica sempre à flor da água, com olhos divididos em duas porções, uma para ver fora da água e outra para ver dentro dela, pois são equipados com lentes para ar na parte superior e lentes para água na parte inferior. Desse modo, quando estar a nadar pela superfície da água, pode olhar ao mesmo tempo para o mundo acima e para o mundo subaquático. Esse peixe definitivamente sabe ficar de olhos bem abertos e, exatamente por isso, pode tirar proveito dos dois mundos.
 
Esse conceito de ficar de olhos bem abertos a fim de “olhar para dois mundos” deve estar presente no coração de cada membro da Igreja de Jesus Cristo. Isso porque, na caminhada da vida, precisamos olhar para o céu e também para o mundo que nos rodeia. O olhar em direção ao céu nos capacita a concentrarmo-nos no que Deus diz na Sua Palavra, naquilo que é verdadeiro e certo, nos mostra o caminho da obediência ao Senhor, a fim de vivermos “de modo digno do Senhor, para o Seu inteiro agrado” (Cl 1.10). O olhar para o mundo, por sua vez, nos ajuda a ver as oportunidades de demonstrar o amor e a misericórdia de Cristo para as pessoas presas nos grilhões do pecado, libertando-as e influenciando-as para viverem na luz do Evangelho.
 
Não viver nesse padrão é o mesmo que negar a essência dos valores para os quais fomos chamados a viver, como membros da Igreja, o corpo de Cristo na terra.
 
Jesus preconizou duas coisas a respeito da Sua Igreja, às quais precisamos sempre retornar para manter a nossa fé e reforçar a nossa esperança, e também para cumprirmos a nossa missão no mundo. A primeira, que a Igreja seria indestrutível. Ele disse: “Edificarei a minha Igreja e as portas do inferno não prevalecerão contra ela” (Mt 16.18). De fato, historicamente, nada tem conseguido parar ou destruir a Igreja de Jesus.
 
A segunda, que a Igreja deveria ser relevante e fazer diferença no mundo. Ele ordenou: “Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo; ensinando-os a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado” (Mt 28.19,20).
 
A primeira depende única e exclusivamente de Jesus, e Ele está cumprindo fielmente a Sua parte. A segunda depende dos seguidores de Cristo. E é exatamente nessa perspectiva que repousa o fato de sermos ou não relevantes no mundo, por estarmos ou não de olhos bem abertos para a verdade de Deus.
 
É absolutamente admirável o fato de que o maior e mais constante perigo com o qual a Igreja se defronta não é o Diabo, nem a morte; não é enfermidade ou doença; e também não é o pecado, pois Jesus foi vencedor contra todos esses na cruz (Is 53.4-6; 2Co 5.21). O maior e mais constante perigo com o qual a Igreja se defronta é a irrelevância, por causa de suas próprias escolhas morais e comprometimentos éticos.
 
Ressalte-se que a relevância básica que realmente importa é a que aponta para as necessidades profundas das pessoas: necessidade de salvação e de sentido na vida. E isso tem a ver essencialmente com a luz do Evangelho de Jesus Cristo na vida das pessoas, em particular, e da sociedade, em geral, em cujas vidas a Igreja funciona relativamente como “luzeiro” a mostrar o caminho da salvação a todos. Lembre-se: o que nos faz enxergar é a luz! Não adianta ter olhos bem abertos e nenhuma luz!
 
Somos continuamente lembrados de que vivemos num mundo espiritualmente imerso em trevas. As nossas próprias tendências pecaminosas nos gritam isso a todo momento. Os noticiosos a que assistimos são continuamente recheados de todo tipo de crime e desajuste social, o que demonstra sermos uma sociedade cada vez mais permissiva e acostumada com a imoralidade sem freios. É fácil perceber que vivemos “no meio de uma geração pervertida e corrupta” (Fp 2.15). É muito fácil constatar isso, principalmente no Brasil, quando suas principais lideranças políticas recentes estão condenadas e encarceradas, ou em vias de sê-lo.
 
Foi exatamente para combater esse cenário de trevas espirituais, de escuridão moral, que os discípulos de Cristo foram instruídos a viverem como “luzeiros no mundo” ou “filhos da luz”. Embora sabedores de que nossa conduta na maioria das vezes reflete apenas uma imagem vaga e distorcida de Jesus e que sozinhos não podemos afastar toda a escuridão, não podemos esquecer o quão significativo será se cada um fizer a sua parte de ser luz e manter os olhos bem abertos.
 
Há várias maneiras de reagir à escuridão espiritual. Alguns cristãos preferem se encastelar e viver uma espécie de clausura moral. Embora procurem viver corretamente, nada mais fazem; vivem apenas como “agentes secretos de Deus”, pois só Deus sabe que são “cristãos”, ninguém mais. Há também quem prefira murmuração e contendas, vendo só o cisco nos olhos dos outros e não a trave em seus próprios olhos. Mas o apóstolo Paulo nos alerta a fazer “tudo sem murmuração nem contendas, para que vos torneis irrepreensíveis e sinceros, filhos de Deus inculpáveis no meio de uma geração pervertida e corrupta, na qual resplandeceis como luzeiros no mundo” (Fp 2.15,16).
 
Cada cristão tem a obrigação de deixar que sua vida redimida e iluminada por Cristo sirva de lanterna a espalhar a luz do Evangelho para iluminar outras vidas, tal como Jesus ensinou (Mt 5.16).
 
O mundo ao nosso redor é escuro devido à ignorância espiritual; as pessoas estão espiritualmente cegas, sem olhar nenhum objetivo superior para si próprias, o que as conduz a um desespero silencioso que lhes faz tropeçar na vida.
 
Só os que conhecem a Cristo e são conhecidos por Ele estão em condição de ver os dois mundos. Nossos olhos foram abertos para obedecermos a Palavra de Deus e para levarmos as boas novas da salvação de Cristo para as pessoas cegas em seus pecados e ajudá-las a ver e viver uma vida abundante. Isso é o que torna a Igreja relevante. É isso que significa viver uma vida “de olhos bem abertos”.
 
 
Samuel Câmara
Pastor da Assembleia de Deus em Belém