No início do Século XX, uma turma do curso de Sociologia na Universidade americana Johns Hopkins fez um estudo entre as crianças da pior favela de Baltimore. Eles visitaram os lares das crianças, anotaram as boas e más influências que as cercavam e tabularam suas observações em fichas. Duzentas dessas fichas foram marcadas com a anotação: “Destinado à cadeia”. As fichas foram arquivadas para estudos e consultas posteriores.

Vinte e cinco anos mais tarde, outra turma da mesma universidade procurava um estudo para realizar e encontrou aquelas fichas. Decidiram procurar aquelas pessoas e descobrir o que lhes havia acontecido. Não foi fácil encontrá-las, mas finalmente localizaram todas, uma por uma. Ficaram estupefatos com o que descobriram. Somente duas daquelas 200 haviam passado algum tempo na cadeia! Os alunos da segunda turma se perguntavam como é que os estudantes da primeira turma se haviam enganado tanto.

A razão se chamava Tia Ana. Essa mulher era uma professora do primeiro grau que lecionava nas favelas de Baltimore e revelava interesse pessoal por seus alunos. Vez após vez, o testemunho daqueles que ela havia influenciado era: “Não resta dúvida de que meu destino era a prisão, mas Tia Ana fazia questão de me colocar na direção certa, e isso constituiu toda a diferença”. Por sua vez, quando solicitada a contar de seu sucesso, Tia Ana respondeu modestamente: “Eu apenas os amava como se fossem meus próprios filhos. Sabe, nunca tive meus próprios meninos e meninas; dessa maneira, todos eles eram meus em certo sentido”. Que nobre espírito!

Hoje, quase um século depois dessa história, as crianças da América se encontram em sérias dificuldades. E não apenas as crianças da América; no mundo todo, especialmente no Brasil, a delinquência entre as crianças e adolescentes está aumentando assustadoramente, tanto entre os menos privilegiados como também entre os abastados. As cadeias estão cada vez mais abarrotadas. Um batalhão de pessoas no mesmo espírito de “Tia Ana” poderia fazer uma enorme diferença!

Um fato triste é que investimos muito para tentar corrigir os adultos, punindo-os e trancafiando-os, abarrotando-os em presídios que mais parecem masmorras medievais, e relativamente bem pouco para educar nossas crianças.

“Um preso no Brasil custa R$ 2,4 mil por mês e um estudante do ensino médio custa R$ 2,2 mil por ano. Alguma coisa está errada na nossa Pátria amada.” A constatação foi feita pela presidente do Supremo Tribunal Federal, ministra Carmen Lúcia, segundo a qual um preso custa 13 vezes mais do que um estudante no Brasil.

Infelizmente, as crianças nem sempre são prioridade, seja para governantes ou para líderes religiosos. Até mesmo no tempo de Jesus se podia perceber isso. Note que, depois de uma dura jornada de trabalho, Jesus voltava para casa a fim de descansar com seus discípulos, quando alguns pais lhe trouxeram suas crianças para que as abençoasse. Todavia, os discípulos de Jesus os repreenderam severamente. Decerto, a hora era inoportuna, eles mereciam descansar. Mas não era o que Jesus pensava.

Em vez de concordar com os discípulos, Jesus, vendo como eles tratavam as crianças, indignou-se e disse-lhes: “Deixai vir a mim os pequeninos, não os embaraceis, porque dos tais é o reino de Deus. Em verdade vos digo: Quem não receber o reino de Deus como uma criança de maneira nenhuma entrará nele. Então, tomando-as nos braços e impondo-lhes as mãos, as abençoava” (Mc 10.13-16).

É importante vermos, nesta narrativa, as crianças como elas geralmente são: irreverentes, inquietas, nunca andando, mas sempre correndo, raramente silenciosas e quase sempre barulhentas. Tudo o que elas queriam era chegar perto de Jesus, tocar Nele, sentar no Seu colo. Foi neste ponto que os discípulos se descobriram como “guarda-costas” de Jesus, embora isto implicasse em excluir as crianças de serem abençoadas. Eles não perguntaram se Jesus queria tocar as crianças e abençoá-las, ou se elas estavam atrapalhando com sua correria e vozerio. Eles simplesmente decidiram pelo Mestre.

Mas Jesus fica indignado. Então, Ele transmite uma lição muito clara: o reino de Deus é das crianças; e qualquer adulto que deseje entrar nesse reino deve se tornar como uma criança. Em outras palavras: a religião que realmente conta é aquela que prioriza as crianças, que as instrui no caminho do Senhor, que as faz participantes das bênçãos dos céus, pois elas são o padrão de aferimento para entrada no reino de Deus.

Não são poucos, infelizmente, os que deixam de dar a devida atenção às suas crianças, principalmente os governos. Mas é nessa fase da vida que se forma o caráter de uma pessoa e, por conseguinte, de uma geração. As crianças passaram a ser alvo preferencial das portas do inferno, através de adultos malfazejos, que sem piedade lhes destroem a inocência e a felicidade com drogas, abusos sexuais, violência doméstica, crimes, abandono nas ruas, descuido das famílias e outras mazelas.

Se educássemos bem as nossas crianças, certamente não teríamos de pagar caro para conter rebeliões em presídios. Por isso, a Bíblia orienta: “Ensina a criança no caminho em que deve andar, e, ainda quando for idoso, não se desviará dele” (Pv 22.6). Não basta apontar o caminho, é preciso andar com os filhos “no caminho”, ou seja, dando o exemplo e vivendo e ensinando os valores morais e espirituais. Os pais podem mostrar-lhes os perigos e as belezas da estrada. E, quando seus filhos crescerem, poderão seguir sozinhos, ensinando também seus próprios filhos.

Seria possível que Deus estivesse chamando você para esse tipo de trabalho de ser uma “Tia Ana” na sua família e na sua comunidade? Se estiver, Ele encontraria você disposto(a) a dar-se por amor a essas crianças, para garantir a elas um futuro melhor?

Saiba que investir nas crianças é salvar o Brasil!

 

 

Samuel Câmara

Pastor da Assembleia de Deus em Belém