Jesus era um homem de oração. Ele passava longas horas com o Pai em oração, inclusive varando madrugadas inteiras. E os discípulos observavam o seu exemplo. Um belo dia, depois de observarem Jesus em intensa oração, eles lhe pediram: “Senhor, ensina-nos a orar”. Foi então que Jesus lhes ensinou o “Pai Nosso”, a oração mais conhecida, apreciada e utilizada em toda a civilização cristã. Ela é proferida por santos e pecadores, nas horas de aflição ou de alegria, lamentando ou festejando, ou como uma espécie de amuleto protetor.
 
Agora, uma coisa me intriga. Se o Pai Nosso é um modelo de oração, então por que os discípulos não o utilizaram nas vezes em que os vemos orar nos Evangelhos, em Atos e nas Epístolas? Veja, por exemplo, em Atos 4, quando toda a Igreja levantou a voz em oração por causa da perseguição (At 4.24-31). O próprio Jesus não a utilizou nos poucos registros existentes do teor de suas orações (Jo 11.41-43; 17.1-26). Paulo também não o faz, nas diversas orações em suas cartas. E por que não utilizavam esse suposto “modelo” de oração?
 
Porque o Pai Nosso não é um modelo de oração. É um modelo de vida! Simples assim.
 
Embora todos nós conheçamos o Pai Nosso, devemos reconhecer que não poucas vezes somos tentados a deixar de ver as suas implicações subjacentes. Ou ainda, podemos estar simplesmente com os olhos espirituais de tal modo embotados, que não enxergamos o óbvio da coerência de vida requerida da pessoa que se aproxima de Deus através da oração.
 
Vejamos, abaixo, algumas considerações sobre as cobranças implícitas de cada sentença no Pai Nosso, que identificam a coerência de vida requerida para dar sentido à oração que proferimos.
 
Quando eu digo: “PAI”, estou a demonstrar a minha relação de filho de Deus, nascido da Palavra de Deus através da ação do Espírito Santo.
 
Quando eu digo: “NOSSO”, reconheço que não sou mais filho do que o meu irmão; e não posso viver num compartimento espiritual como se no céu estivesse reservado um lugar especial só para mim ou para a “minha” igreja.
 
Quando eu digo: “QUE ESTÁS NO CÉU”, identifico a minha limitação terrena e a soberania de Deus. E, por causa disso, não devo me ocupar em preocupações terrenas, como em ajuntar tesouros na terra, descuidando-me do que tem valor eterno.
Quando eu digo: “SANTIFICADO SEJA O TEU NOME”, tenho por certo a necessidade de procurar santificar o nome de Deus na minha vida, buscando ser santo como Ele é santo, pois sou chamado pelo Seu santo nome. O pecado não é mais uma opção.
Quando eu digo: “SEJA FEITA A TUA VONTADE”, reconheço que a minha vontade pessoal não conta mais; e não posso ficar ressentido e desobediente em relação à Sua vontade total e absoluta para comigo, a qual é boa, perfeita e agradável.
 
Quando eu digo: “ASSIM NA TERRA COMO NO CÉU”, devo reconhecer que o maior empecilho para que a vontade de Deus seja feita na minha vida sou “eu mesmo”; e assim, devo negar a mim mesmo e me dedicar inteiramente a Ele, andando nas boas obras que Ele mesmo preparou de antemão para que eu andasse nelas, para que a Sua vontade seja perfeitamente realizada através de mim.
 
Quando eu digo: “O PÃO NOSSO DE CADA DIA DÁ-NOS HOJE”, reconheço que Deus é o meu provedor, aquele que me alimenta; e assim, não posso viver como se não fizesse questão de obter aqui e agora o que necessito.
 
Quando eu digo: “PERDOA-NOS AS NOSSAS DÍVIDAS, ASSIM COMO NÓS TAMBÉM PERDOAMOS AOS NOSSOS DEVEDORES”, entendo que essa é a condição “sine-qua-non” para que eu mesmo seja perdoado por Deus; e por isso, não devo guardar rancor contra nenhuma pessoa nem negar perdão a qualquer dos meus ofensores.
 
Quando eu digo: “NÃO NOS DEIXES CAIR EM TENTAÇÃO”, tenho de levar em consideração duas coisas: primeiro, que só Deus pode me guardar, pois não sou forte o suficiente. E se Ele não guardar o meu coração, sou uma presa fácil para o Diabo. Segundo, que reconheço que o mal reside em mim e, portanto, não devo ficar deliberadamente me expondo à tentação ou colocando-me onde provavelmente poderei ser tentado.
 
Quando eu digo: “LIVRA-NOS DO MAL”, coloco em Deus a minha confiança como meu único Defensor, e por isso o Maligno não pode me tocar. Preparo-me, então, para lutar pela fé no reino espiritual com as armas da Palavra de Deus e da oração, esperando unicamente a vitória.
 
Quando eu digo: “TEU É O REINO”, devo conceder ao Rei dos reis a obediência disciplinada de um súdito fiel, pois o Senhor não espera menos de mim. O reino é de Deus, e, como Seu súdito, a minha responsabilidade com o reino dos homens não pode ser maior nem mais excelente do que com o Reino Dele.
Quando eu digo: “TEU É O PODER”, não devo temer o que as pessoas me possam fazer ou dizer de mim, porque o poder pertence a Deus, o meu Pai.
 
Quando eu digo: “TUA É A GLÓRIA”, não posso ficar buscando, como os fariseus, ser glorificado pelos homens. E, quer eu coma, ou beba, ou faça qualquer outra coisa, devo fazer tudo para a glória de Deus.
 
Quando eu digo: “PARA SEMPRE”, não posso limitar o meu horizonte pelas coisas do tempo, mas manter meu foco na eternidade.
 
Agora, uma vez que eu estou disposto a encerrar a minha oração dizendo “AMÉM”, preciso acrescentar também “CUSTE O QUE CUSTAR”, porque Jesus ensinou que esta oração equivale a um modelo radical de vida que consagra tudo a Deus.
Jesus, o Filho de Deus, precisava orar. Nós também! Oremos sempre, na certeza de que “um cristão de joelhos vê mais que um filósofo na ponta dos pés”.
Samuel Câmara
Pastor da Assembleia de Deus em Belém