Tecnicamente, a miopia é um distúrbio de refração em que os raios luminosos formam o foco antes da retina; popularmente, é a chamada “vista curta”, uma deformidade que impede a visão nítida de objetos situados distantes do observador. Em sentido figurado, é a atribuição de pouca ou nenhuma perspicácia para perceber e entender as coisas.

Em termos sociológicos, existe a miopia moral, cuja expressão decorre do fascínio humano pelas deformidades da moral e pelo acalento das animalidades do caráter como algo normal e tolerável. A miopia moral, além de cobrar um enorme e impagável preço, tem o condão de vergar o dorso da sociedade para o mal, destruir os bons costumes e, por fim, inviabilizar o seu caminho em busca do bem-estar social. Por exemplo, as notícias ruins e os escândalos ruidosos explorados pela mídia, assim como por filmes, novelas e programas que expõem as mais ignominiosas mazelas humanas, pode até ajudar a identificar um autêntico desejo de informação ou entretenimento, mas serve para revelar, igualmente, a miopia moral de que está acometida a nossa sociedade.

Certamente, em razão dessa fascinação, os produtores de mídias ofereçam os mais variados “cardápios”, desde as indigestas baboseiras explícitas dos reality shows até as apelativas novelas e filmes, tudo recheado dos mais variados pecados. Para obter a nossa atenção, as chamadas desses programas geralmente invocam o que de mais vil existe na natureza humana: violência, intriga, prostituição, incesto, ódio, traição, mentira, imoralidade de toda sorte e inomináveis desvios de conduta no seio da família, pois estas coisas são chamarizes que possibilitam enormes picos de audiência.

Sem se darem conta de que o pecado encravou as garras nas entranhas do seu ser, as pessoas apoiam políticas contrárias à fé cristã e acabam votando em bandidos e corruptos “populares”; se veem torcendo para que uma garota de programa destrua um casamento; torcem para que o bandido não seja pego nas malhas da lei; desejam a morte de uma pessoa correta só porque parece “careta”; almejam estar na posição de um político venal ou de um rico mau-caráter; admiram o poder sedutor de um irresponsável; louvam a coragem de um canalha; almejam o sucesso de um belo e irresistível criminoso que costuma se dar bem; invejam a opulência de um corrupto que enriqueceu às custas da pobreza de outros, entre outros obscuros e inconfessáveis desejos.

No entanto, a miopia moral, com seu notório sintoma de ativação da nossa dissimulação em relação ao mal, cobra um alto preço. Primeiro, pode nos tolher a capacidade de indignação. Assim, por não esboçarmos sequer o menor sinal de tédio ou de revolta quando o mal está, por assim dizer, aparentemente fora do nosso alcance, ou porque simplesmente não nos atinge de modo direto, corremos o risco de deixar de desejar e buscar o que é certo e vir a aplaudir o que é errado, especialmente quando o espectro do mal sai do terreno da ficção e invade o campo da realidade.

Segundo, pode nos tornar egoístas, prisioneiros de nós mesmos, envolvendo-nos em um casulo existencial que nos conforma com os nossos interesses pessoais em detrimento do bem público. Talvez advenha dessa vertente a nossa cultura do “jeitinho brasileiro” e a de “levar vantagem” em tudo. Terceiro, pode nos tornar reféns da desesperança, pois o mal é banalizado e a injustiça reduz a vida a estereótipos de esperteza e sagacidade. Além de indicarem uma certa miopia moral, essas reações mostram a dura realidade de que a nossa tessitura espiritual está seriamente comprometida.

O problema não é primariamente a mídia e sua produção “cultural” apodrecida, pois esta tão somente se alimenta do ardente desejo de não poucos de consumi-la e representa apenas um dado a mais no mostruário das indignidades humanas. O problema principal é a nossa natureza essencialmente comprometida com o pecado e a injustiça que dele resulta. O nível de comprometimento com o pecado identifica o grau de miopia moral em qualquer outra área que se pense. Decerto, é a miopia moral que faz com as pessoas optem por escolhas erradas.

Quanto a isso, aconteceu um fato pitoresco em relação a Jesus. Os líderes judaicos sabiam que Ele era o Messias, que viera para salvar os pecadores e instaurar o Reino de Deus; sabiam que tinham de proceder corretamente, mas preferiram antes corresponder ao “status quo” que os favorecia. Desse modo, “muitos dentre as próprias autoridades creram nele, mas por causa dos fariseus não o confessavam, para não serem expulsos da sinagoga; porque amaram mais a glória dos homens, do que a glória de Deus” (Jo 12.43). Da mesma forma, a maioria de nós sabe o que é certo e como fazer o que é correto, mas prefere a opção de menor resistência, buscando fazer apenas o mínimo necessário e não o máximo possível.

Toda miopia pode ser corrigida, e lentes são usadas eficazmente para isso. Moralmente falando, as lentes que nos farão ver ao longe sem perder o foco, distinguindo corretamente as oportunidades e os perigos da jornada, são o conjunto da revelação de Deus ao homem contida na Bíblia Sagrada, a inspirada Palavra de Deus. Nela está revelado que o mal não vai prevalecer sempre e que o bem triunfará; que o ímpio não subsistirá e que o justo reinará em paz e segurança. Por óbvio, em decorrência da ação profilática dessa Palavra é que existe ainda uma “reserva moral” de homens e mulheres sérios e corretos neste país que não o deixa apodrecer de vez.

O capítulo final da História, descrito na Bíblia, mostra que o mal será subvertido, pois Jesus e aqueles que o seguem vão finalmente reinar em um mundo de justiça e paz. Mas, enquanto isso não ocorre, cada um de nós precisa tomar a inequívoca posição de orar e fazer o que é certo, mesmo que, por enquanto, a miopia moral tupiniquim ainda prevaleça.

Ademais, a despeito de tanta influência negativa, podemos pedir ao Senhor Jesus que corrija primeiramente a nossa miopia moral com as lentes de Sua Palavra e nos ilumine para vivermos uma vida irrepreensível diante de Deus e do mundo.

 

 

Samuel Câmara

Pastor da Assembleia de Deus em Belém