Uma das tarefas mais difíceis do cristão é a de transformar em prática os preceitos e mandamentos das Escrituras. Não falo aqui da dificuldade de realizar o que é certo fazer, como dizia Paulo “o bem que quero fazer não faço”, mas falo justamente da dificuldade de saber o que é certo fazer.
Por exemplo, quando Jesus diz “Amai ao próximo como a ti mesmo” é fácil entender que devemos amar a nosso próximo, mas como? Com quais atitudes? Quando lemos “não andeis ansiosos com coisa alguma” como realmente devemos nos comportar afim de seguirmos essa orientação plenamente?
Um erro muito comum nos meios cristãos é a confusão que se faz entre princípios e costumes, entre justiça divina e mandamentos. Quando há confusão entre estes dois conceitos as pessoas acabam caindo ou na apostasia ou no dogmatismo, e como apostasia gera dogmatismo e dogmatismo gera apostasia então entra-se num ciclo difícil de quebrar.
Tão difícil de quebrar que boa parte das pregações de Jesus foi para combater estes dois erros. O que Jesus nos ensina é que os princípios e a justiça divinas são imutáveis mas que os costumes e doutrinas que vivemos precisam ser contextualizados afim de cumprir a justiça divina plenamente.
“Não penseis que vim destruir a lei ou os profetas; não vim destruir, mas cumprir. […] Pois eu vos digo que, se a vossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrareis no reino dos céus. […] Ouvistes que foi dito: Não adulterarás. Eu, porém, vos digo que todo aquele que olhar para uma mulher para a cobiçar, já em seu coração cometeu adultério com ela.”
Mateus 5:17,20,27-28
O fato é que a justiça divina precede a doutrina, antes mesmo de existirem os 10 mandamentos já havia a justiça divina. Acontece que para que os homens não violassem os princípios divinos Deus deu mandamentos/doutrinas/costumes afim de facilitar para que andassem no caminho correto.
Mas os costumes nunca foram fixos e/ou imutáveis: existiram mandamentos específicos para o povo de Israel no deserto; existiram mandamentos quando eles se instalaram na terra de Canaã; existiram mandamentos para tempos de guerra; no novo testamento Jesus contextualiza os mandamentos para que eles correspondessem à justiça divina e os apóstolos às vezes davam doutrinas diferentes para igrejas diferentes de acordo com o que estavam vivendo e com o ambiente no qual estavam inseridos. Por exemplo, apenas à igreja em Corinto que Paulo orienta que as mulheres ficassem caladas na igreja:
as mulheres estejam caladas nas igrejas; porque lhes não é permitido falar; mas estejam submissas como também ordena a lei. 1 Coríntios 14:34
Acontece que a lei (Torá) veio antes de existirem igrejas (ou sinagogas) então não há mandamento específico que proíba uma mulher de falar na igreja, mas havia na lei sim o princípio de submissão e, naquele contexto, o estar calada nas igrejas era uma forma de viver o princípio da submissão naquele contexto. O próprio Paulo explica, no versículo seguinte, que o motivo daquela orientação era evitar o escândalo porque naquele ambiente era vergonhoso que as mulheres falassem na igreja.
“E, se querem aprender alguma coisa, interroguem em casa a seus próprios maridos; porque é vergonhoso que as mulheres falem na igreja.” 1 Coríntios 14:35
Tomando como exemplo o trecho acima, podemos ter num contexto cristão o fundamentalismo que vai querer que as mulheres fiquem caladas nas igrejas independente do contexto só porque está escrito na bíblia, ou a apostasia feminista que vai querer desconstruir o princípio de submissão e casamento só porque a orientação de Paulo àquela igreja no contexto atual pode ser considerada ‘machista’.
Um cenário aonde quase sempre há confusão é a respeito de sensualidade. Qualquer cristão concorda que a sensualidade fora do casamento é pecado em qualquer circunstância. O problema é que é uma tarefa impossível definir um limite de quando algo se torna sensual, até porque quando se afasta dos extremos a sensualidade é relativa a quem observa. Podemos concordar unanimemente que a exposição de órgãos sexuais exprime sensualidade, mas se há sensualidade na exposição dos pés, por exemplo, vai depender da loucura de quem observa.
Então começam a surgir doutrinas a respeito do tamanho de calças e vestidos visando colocar uma ‘margem de segurança’ antes do pecado. Mas quem apenas segue a doutrina cegamente sem entender o princípio por detrás corre o risco de cair no velho erro do vestido que cobre até o pé porém é mais apertado do que um Palio com oito passageiros, ou seja, segue a doutrina mas viola o princípio. Por outro lado a apostasia desconstrucionista vai dizer que uma vez que não há uma clara definição a respeito do que é sensualidade qualquer regra é hipócrita e doutrina de homens, e no fim podem acabar vivendo como animais sem lei.
É importante e sábio que numa congregação haja doutrinas que se adequem ao consenso geral e ao ambiente que está inserida, porque em muitos casos o senso comum é o que define o pecado. Talvez numa tribo mais isolada seja corriqueiro mulheres andarem com os seios expostos, coisa que numa igreja batista qualquer faria os adolescentes falarem grego. Então existe sim um senso comum, mesmo que seja difícil de defini-lo.
Mas o que Jesus ensina é que individualmente e a despeito de qualquer doutrina, nós tenhamos a sabedoria e discernimento de adequarmos nossos costumes de acordo com o que poderia nos fazer pecar. Se mesmo vestindo as “roupas certas” alguma pessoa é sensual para você, não olhe. Se passar na frente de um bar te faria cair no alcoolismo, dê a volta no quarteirão. Se não consegue se controlar na internet e acaba vendo o que não deve, não use internet. Se está em alguma rede social que te expõe frequentemente a algo que não é santo, saia.
“Portanto, se o teu olho direito te escandalizar, arranca-o e atira-o para longe de ti; pois te é melhor que se perca um dos teus membros do que seja todo o teu corpo lançado no inferno. E, se a tua mão direita te escandalizar, corta-a e atira-a para longe de ti, porque te é melhor que um dos teus membros se perca do que seja todo o teu corpo lançado no inferno.”
Mateus 5:29,30