No lugar certo fazendo a coisa certa

Um artista, quando vai pintar um quadro, sabe muito bem que talvez não seja capaz de exceder a precisão de Miguel Ângelo ou Rafael. Porém, sem desanimar, empunha o pincel e emprega as tintas, faz o melhor que pode e, finalmente, em modestas proporções, consegue assemelhar-se aos grandes mestres da arte. Também o escultor, embora persuadido de que não rivalizará com Praxíteles, trabalhará o mármore e procurará aproximar-se o mais possível do modelo. Um atleta, por mais que tenha em mente que jamais excederá a genialidade de um Pelé com a bola nos pés, de um Michael Jordan com a bola nas mãos, de um Guga com uma raquete, ou de uma Nádia Comaneci nos movimentos graciosos da ginástica, sabe que tem de seguir em frente. Todavia, o artista, o escultor, o atleta, assim como qualquer outra pessoa, têm algo em comum, além de um alvo proposto: saber se é a pessoa certa no lugar certo e fazendo a coisa certa.

Não resta dúvida que colocar a pessoa certa na posição certa para fazer a coisa certa é um dos maiores desafios da sociedade, principalmente quando pensamos a vida social como um organismo, com cada membro ou órgão desempenhando suas funções de acordo com seus talentos específicos, multifuncionais ou não.

Pensemos nesse “organismo social” como sendo semelhante a um corpo. Essa foi a ideia que Paulo, o apóstolo, desenvolveu em relação à funcionalidade da Igreja, o corpo místico de Cristo, que pode ser perfeitamente apropriada e usada para refletirmos essa questão.

Paulo disse: “Porque o corpo não é um só membro, mas muitos. Se o pé disser: Porque não sou mão, não sou do corpo; nem por isso deixa de ser do corpo. Se o ouvido disser: Porque não sou olho, não sou do corpo; nem por isso deixa de o ser. Se todo o corpo fosse olho, onde estaria o ouvido? Se todo fosse ouvido, onde o olfato? Mas Deus dispôs os membros, colocando cada um deles no corpo, como lhe aprouve. Se todos fossem um só membro, onde estaria o corpo? O certo é que há muitos membros, mas um só corpo. Não podem os olhos dizer à mão: Não precisamos de ti; nem ainda a cabeça, aos pés: Não preciso de vós. Pelo contrário, os membros do corpo que parecem ser mais fracos, são necessários (…) e não haja divisão no corpo; pelo contrário, cooperem os membros, com igual cuidado, em favor um dos outros” (1Co 12.14-22).

       Diante desse quadro esplêndido temos um desafio duplo. Por um lado, há pessoas que, por estarem na posição errada, para a qual não foram preparadas, são como olhos lutando desesperadamente para desempenharem as funções do ouvido. Isso nos remete à base do problema, que alia a vocação e a educação que desenvolve os meios de exercê-la. Ninguém pode negar que esse problema educacional se encontra na raiz da problemática essencial de capacitação profissional em nosso país.

Por outro lado, há aqueles que, por falta de oportunidade ou por mera preguiça existencial, desenvolvem talentos inúteis para a sociedade, algo como um olho que treina para só enxergar bem quando for colocado na parte de trás da cabeça. Nesse grupo se encontram os preguiçosos contumazes, os que só querem levar vantagem, e também os criminosos de todos os níveis e quilates, desde o ladrão de galinha até o bem educado larápio do colarinho branco. Essas pessoas não se dão conta de que gastam muito mais energia psíquica tramando a feitura do mal, ou apenas não fazendo bem algum, do que o fariam se praticassem simplesmente o bem.

Ambos os grupos ilustram o exercício de talentos inúteis, posto que ineficazes, exemplificados na vida de alguns, entre as quais talvez estejam pessoas bem conhecidas de muitos.

Atente para a seguinte parábola. Numa família havia dois irmãos. Desde criança, um sempre foi mais jovial e responsável que o outro. Um foi se habilitando no trabalho e prosperava cada vez mais; o outro vivia sem fazer nada; ficava deitado numa rede, tendo por hábito lançar dardos na parede. Ele tornou-se um excelente atirador de dardos, a ponto de matar moscas com absoluta precisão. Seu irmão, que era trabalhador, já não podendo suportar tal situação, e já cansado de sustentar a casa sozinho, chegou um dia muito indignado e disse ao seu irmão que este teria de gerar alguma receita, nem que fosse com a sua aptidão de lançar dardos.

Tomou o irmão pelo braço e o levou ao Palácio Real e contou sobre a aptidão do irmão, solicitando que os levassem à presença do Rei. Fizeram-no saber ao Rei, que logo mandou trazê-los. Diante do Rei, o irmão trabalhador contou-lhe sobre a aptidão que o seu irmão tinha com o lançamento de dardos. O Rei mandou então um dos seus súditos trazer uma dúzia de dardos e colocou o moço a certa distância, ordenando que ele começasse a lançá-los. Depois de ter lançado todos os dardos, sua Alteza conferiu e percebeu que o moço tinha acertado todos os alvos propostos “na mosca”.

Impressionado, o Rei despediu os irmãos e chamou seu oficial, dizendo-lhe: “Acompanhe estes moços até a saída do Palácio, dê a cada um cinco moedas de pratas e aplique setenta chibatadas no moço que lançou os dardos”. Sem entender o porquê das moedas e chibatadas, o oficial perguntou ao Rei a razão disso. O Rei respondeu: “As moedas são para recompensá-lo pelo talento desenvolvido; as chibatadas são para que ele aprenda a não mais desenvolver tão precioso talento para exercê-lo em algo tão inútil”.

Moral da história é: o talento que você tem desenvolvido, para que serve? Serve para promover uma justa cooperação na sociedade ou é apenas um meio de ir levando a vida sem viver a glória de ser útil? A sua resposta indica se você é a pessoa certa ou não para a posição que ora ocupa, e também se está fazendo a coisa certa.

 

Samuel Câmara

Pastor da Assembleia de Deus em Belém

admin

Analista de Sistema.

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