A cruz de Cristo sempre foi um elemento de divisão entre gentes de todas as raças e culturas, não importado seu grau de escolaridade, posição social, grupo político, condição econômica, estado de saúde, origem familiar ou étnica etc. De um lado ou de outro, sempre houve quem a aceitasse como a provisão de Deus para a nossa salvação, como também quem a rejeitasse peremptoriamente. Grandes homens do passado, como Gandhi e Nietzsche, tiveram dificuldade de aceitar o Evangelho a partir da cruz de Cristo. Na época dos apóstolos, isso também não era novidade, tanto que Paulo escreveu de modo radical: “A mensagem da cruz é loucura para os que se perdem, mas para nós, que somos salvos, poder de Deus” (1Co 1.18).

         Depois de dois mil anos, sob os escombros de civilizações e de poeira filosófica, manchada pelo descrédito das religiões, a cruz, em muitas culturas, assumiu um papel de mero fetiche ou adorno fashion.

         Lembro-me da história de um judeu, que durante quinze anos foi feito prisioneiro das autoridades soviéticas, não por questões de fé, mas por motivo de dissidência política, de acordo com o livro Guinness dos recordes. Consta na história que ele se tornou cristão quando estava na terrível prisão de Gulag e também que, nesse período de tão penosa experiência, ele foi sustentado pela sua fé em seu Salvador Jesus Cristo e pela lembrança de seu filhinho de quatro anos, que esperava poder rever um dia.

         Quando finalmente foi libertado, esperava com grande entusiasmo o tão esperado reencontro com seu filho, agora com 19 anos de idade. Quando se abraçaram, o pai teve uma imensa satisfação ao perceber uma cruz pendurada em seu pescoço. Depois de terem conversado a respeito de várias coisas, o pai perguntou ao filho qual o significado que aquela cruz tinha para ele. “Pai, para a minha geração, a cruz é apenas uma expressão da moda” – respondeu.

         A decepção daquele pai é a mesma de muitos cristãos fiéis, quando veem muitas pessoas com o mesmo comportamento daquele jovem. Infelizmente, para alguns, a cruz tem apenas valor estético de modismo. Outros a tomam como amuleto protetor. Não poucos a tratam como fetiche. Isso me lembra o que dizia de modo contundente uma frase de para-choque de caminhão: “É muito fácil levar Jesus no peito; difícil é ter peito para andar com Ele”.

Assim como as ideologias e religiões trazem em seu bojo um símbolo visual que sintetiza algum aspecto importante de sua crença e história – o nazismo traz a suástica; o comunismo, a foice e o martelo; o judaísmo, a estrela de Davi; o budismo, a flor de lótus; o islamismo, o crescente –, o Evangelho tem na cruz o seu mais importante símbolo visual.

         Independentemente das diferenças entre os cristãos, estamos todos à sombra da cruz. A morte de Cristo na cruz é o ponto de partida; sem este fato histórico não haveria Evangelho a ser crido e proclamado. A cruz, porém, nada é sem o crucificado. Certamente isto ensejou Paulo a declarar: “Porque decidi nada saber entre vós, senão a Jesus Cristo e este crucificado” (1Co 2.2).

         A centralidade da cruz como símbolo cristão teve sua origem no coração do próprio Jesus. Por isso, a despeito do ridículo — pois a cruz era um objeto de maldição — os cristãos não a descartaram como símbolo nem a trocaram por outro menos ofensivo. Eles sabiam que Jesus falara repetidas vezes sobre Seu sacrifício na cruz: “O Filho do Homem será entregue nas mãos dos homens, e o matarão; mas, três dias depois da sua morte, ressuscitará” (Mc 9.31).

         Foi por intermédio da morte de Jesus na cruz – não através de penitências pessoais –que “Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo” (2Co 5.19).

Há cinco verdades básicas que precisamos saber sobre a cruz de Cristo:

A MORTE DE JESUS NA CRUZ FOI PREDITA. Isso ocorreu 700 anos antes de Jesus Cristo nascer. Isaías escreveu: “Ele foi traspassado pelas nossas transgressões e moído pelas nossas iniquidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados” (Is 53.5). Isso era uma referência a Jesus, “o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (Jo 1.29). Com a sua morte, “Deus cumpriu o que dantes anunciara por boca de todos os profetas: que o seu Cristo havia de padecer” (At 3.18).

A CRUZ ERA VERGONHOSA E HUMILHANTE. A morte na cruz era utilizada pelos romanos para punir ladrões e escravos, os quais eram açoitados e depois crucificados. Está escrito que Jesus foi exposto a esta mesma vergonha: “Cristo nos resgatou da maldição da lei, fazendo-se ele próprio maldição em nosso lugar – porque está escrito: Maldito todo aquele que for pendurado em madeiro” (Gl 3.13).

A MORTE DE JESUS NA CRUZ FOI VOLUNTÁRIA. Jesus morreu porque quis. Ele disse: “O Pai me ama, porque eu dou a minha vida para a reassumir. Ninguém a tira de mim; pelo contrário, eu espontaneamente a dou” (Jo 10.17). A sua atitude nada tinha de fatalista nem de complexo de mártir. Ele queria tão somente cumprir a vontade de Deus para a salvação dos pecadores.

A MORTE DE JESUS FOI SUBSTITUTIVA. Quem substitui alguém, toma o seu lugar e lhe faz as vezes. Isso quer dizer que Jesus tomou o nosso lugar, fazendo-se voluntariamente culpado. Pedro disse: “Carregando ele mesmo em seu corpo, sobre o madeiro, os nossos pecados, para que nós, mortos para os pecados, vivamos para a justiça” (1Pe 2.24). Paulo escreveu: “O qual a si mesmo se deu por nós, a fim de remir-nos de toda iniquidade” (Tt 2.14).

O VALOR DA CRUZ DE CRISTO ESTÁ NA SUA MENSAGEM. Está escrito: “A mensagem da cruz é loucura para os que se perdem, mas para nós, que somos salvos, poder de Deus” (1Co 1.18). Simples assim.

Assim como milhões de servos de Jesus em todo o mundo, eu também cantarei o incomparável valor da Cruz de Cristo: “Sim, eu amo a mensagem da cruz, ’té morrer eu a vou proclamar. Levarei eu também minha cruz, ’té por uma coroa trocar”.

Samuel Câmara

Pastor da Assembleia de Deus em Belém

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