De acordo com o calendário judaico, a Páscoa era a primeira festa dos judeus, tendo sido instituída por Deus, que a mandou celebrar sempre “no mês primeiro, aos catorze do mês, no crepúsculo da tarde” (Lv 23.5). Quatro dias antes da Páscoa, cada família separava do restante dos rebanhos um cordeiro sacrificial sem defeito, quando então seria imolado durante a festa. Na semana de sua crucificação, Jesus certamente fez assim também. Estima-se que cerca de 250 mil cordeiros eram mortos, no período de duas horas, por seiscentos sacerdotes, o que tornava toda Páscoa mais ou menos “igual”, repetitiva. O sangue desses sacrifícios escorria abundante até o ribeiro Cedrom, cujas águas ficavam densas e tingidas de sangue. Mas tudo permanecia igual. Até àquela última Páscoa, diferente de todas as demais, quando “o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo” foi morto.

         A semana mais importante da História, aquela que teve o condão de mudar o próprio curso da História humana, teve uma pessoa especial como seu protagonista: Jesus Cristo, o Filho de Deus. Era também conhecido como o Filho do Homem, o Servo, o Rei, o Cordeiro de Deus. A semana da Páscoa foi definidora para a História, não por causa de sua religiosidade festiva, ou mesmo pelos arroubos libertários próprios de sua celebração. Mas porque a humanidade passou a ter uma real possibilidade de mudar de rumo, de ter acesso ao plano divino de salvação eterna e também de reatar a sua comunhão com Deus.

A semana da Páscoa foi riquíssima em acontecimentos inusitados. Jesus fez assombrosas revelações proféticas a respeito do futuro da humanidade, falou de Sua própria morte como um sacrifício necessário e indispensável, e anunciou sua indefectível traição por um “amigo”. Do lado oposto, Sua morte foi selada em um pacto de traição e os inimigos se organizaram para dar cabo de Sua vida.

Os religiosos prepararam contra Ele uma acusação teológica, a de blasfêmia; os tribunos, uma acusação política, a de sedição. Mas o que estava por trás dos acontecimentos, algo que só Jesus podia ver, era o plano divino de redenção da raça humana, possibilitado pelo Seu próprio sacrifício expiatório. Desse modo, a Páscoa era o pano de fundo de onde se desenrolou o enredo da paixão e morte de Cristo e de onde brotou a nossa esperança eterna.

Jesus incomodava demais com Sua mensagem clara e contundente, pois anunciava que o Reino de Deus estava próximo e que, para entrar nele, era necessário arrependimento e conversão. Tudo contrário à pregação de regras e à adoração formal dos rituais religiosos da época. Tanto que as autoridades judaicas queriam matá-lo.

Jesus, porém, se encaminhou resolutamente para Jerusalém, pois sabia que ali, exatamente durante a festa pascal, é que se cumpriria a libertação espiritual que a própria Páscoa exemplificava. Nada poderia detê-lo, e Ele estava pronto para o sacrifício, para morrer pela humanidade. Mais que isso, Ele sabia que a Sua morte vicária era a única esperança para a humanidade caída.

        Sabe-se que a Páscoa foi instituída, originalmente, como a festividade símbolo da libertação do povo de Israel do Egito, no evento conhecido como Êxodo. O Senhor Deus emitiu uma ordem específica ao Seu povo, cuja obediência traria a proteção divina e a consequente libertação da escravidão. Cada família deveria tomar um cordeiro sem defeito, sacrificá-lo e comê-lo assado. Depois deviam passar o sangue do cordeiro nos umbrais e nas vergas das portas, pois o Anjo da Morte percorreria a terra e passaria por cima das casas que tivessem o sinal do sangue, poupando os seus primogênitos.

Daí o termo Páscoa, do hebraico pesah, que significa “passar por cima”, ou “poupar”. Depois que o povo de Israel saiu do Egito, Deus ordenou que se celebrasse continuamente a Páscoa como um memorial dessa libertação.

A Páscoa, pois, continha um simbolismo profético, como “sombras das coisas futuras”, que apontava para um evento ainda por vir, a Redenção efetuada por Cristo. O apóstolo Paulo afirmou: “Cristo, nossa Páscoa, foi sacrificado por nós”. O cordeiro morto era como um modelo antecipado do sacrifício de Cristo na cruz pelos nossos pecados.

Em suma, a Páscoa simboliza três coisas: liberdade da escravidão, salvação da morte e caminhada para a terra prometida. Para os hebreus, isso tinha um sentido físico, pois havia a escravidão do jugo egípcio a ser subvertida, uma morte ignominiosa iminente a ser suplantada e a esperança de uma terra a ser conquistada.

Para nós, hoje, há o sentido de natureza estritamente espiritual, pois precisamos ser libertos da escravidão do pecado e salvos da morte eterna, caminhando avante na certeza de que o céu onde Cristo habita é o nosso destino final, onde “estaremos para sempre com o Senhor”.

Esta semana é, portanto, muito importante para todos nós. Precisamos fazer deste momento uma oportunidade de reflexão, primando por verificar a posição em que estamos diante de Deus, se em comunhão ou distantes. 

Na Páscoa, obviamente, não cabe o sentimento misto de tristeza e compaixão pela morte de Cristo, como se Ele ainda estivesse impotente na cruz ou inerte no túmulo. Acredito que a Páscoa deva ser comemorada com alegria, pois Sua morte e ressurreição apontam para a libertação que Jesus nos propiciou

Se Cristo não tivesse ressuscitado, como diz Paulo, a nossa fé seria uma completa vacuidade e nós seríamos os mais infelizes de todos os homens (1Co 15.19). Mas Cristo ressuscitou! Ele vive! E porque Jesus está vivo, a nossa esperança é eterna.

Ainda ressoam nas faldas do Universo a palavra dos anjos às mulheres: “Buscais a Jesus, o Nazareno, que foi crucificado; Ele ressuscitou, não está mais aqui”. É isto que torna a semana da Páscoa importante, pois nela o destino do mundo foi mudado. Feliz Páscoa!

 

Samuel Câmara

Pastor da Assembleia de Deus em Belém