Quando as palavras não dizem tudo

Quando o apóstolo Paulo estava preso numa masmorra em Roma, esperando sua execução próxima, perseguido por alguns e abandonado por quase todos, um homem se destacou nessa situação, não por causa das palavras bonitas ou calorosas que tenha dito, mas em razão das atitudes que levaram conforto e recreação ao sofrido coração do prisioneiro. Paulo destaca que fora recreado muitas vezes pela presença de Onesíforo, posto que não se envergonhara das suas cadeias, mas, antes, tendo viajado a Roma, com muito cuidado o procurou até achar (2Tm 1.16,17). Esse é um daqueles casos quando as palavras não dizem tudo, mas, o que quer que seja dito, só tem força de recrear um coração por causa das atitudes que lhe dão suporte.

Lembro-me do caso de um homem havia perdido três filhos, vítimas de acidente, que citou dois exemplos de conforto que recebera durante os momentos de sua pior tristeza na vida: “Alguém me falou sobre o cuidado de Deus, sobre a razão de aquilo ter acontecido e sobre a esperança depois da morte. Falava constantemente, dizendo coisas que eu sabia serem verdade. Nada, porém, me tocou. Eu desejava apenas que ele fosse embora. E, finalmente, ele se foi.”

“Outro homem chegou e sentou-se ao meu lado. Ele também perdera um filho recentemente. Não falou nada, não perguntou nada. Apenas sentou-se ao meu lado por mais de uma hora, ouvindo quando eu dizia alguma coisa e dando respostas curtas. Depois fez uma oração simples e foi embora. Fui tocado. Senti-me confortado. Detestei vê-lo ir embora.”

Geralmente, quando encontramos pessoas desoladas ou vivendo sob a carga de algum sofrimento, nos ocorre a necessidade de preencher o desconforto da situação com palavras. Talvez pelo receio de, se não dissermos algo, o estado delas vir a piorar; ou simplesmente pelo receio de virem a pensar pouco de nós. Por outro lado, podem ocorrer situações que nos forcem a evitar uma aproximação, tão somente porque não sabemos mesmo o que dizer.

De qualquer modo, mais cedo ou mais tarde, qualquer um de nós pode enfrentar essas situações.

Penso no caso de Jó, cujas perdas pessoais e familiares foram terríveis: perdeu riqueza, prestígio, saúde e todos os filhos. Só lhe sobrou um pouco de dignidade pessoal, que ele guardava consigo, e um simples caco de telha para se coçar.

A esposa, cheia de rancor, lhe deu um conselho absolutamente desesperado: “Amaldiçoa a Deus e morre!”. Podemos até mesmo concordar que ela deveria ter ficado calada. Mas como calar diante de tanta tragédia, principalmente para uma mãe que viu todos os seus filhos partirem e toda a sua vida virar de ponta cabeça?! Esse caso era, definitivamente, o de alguém que não sabia o que dizer, mas disse tudo o que seu coração vazava.

Depois vieram os amigos. E que amigos! Vieram de longe para consolar o desventurado Jó. Disseram tudo o que quiseram, tudo o que achavam que podiam: ministraram lições de teologia, conversaram sobre noções de justiça e direito, defenderam Deus, mas, sobretudo, acusaram Jó de estar sofrendo o que merecia; e tinham certeza de que isso era uma clara punição decorrente de seus pecados. Esse era o caso de pessoas que diziam tudo o que sabiam e acabaram não sabendo o que dizer.

Em sua tristeza, Jó almejava pelo apoio silencioso dos amigos. Ele até clamou: “Oxalá vos calásseis de todo, que isso seria a vossa sabedoria” (Jó 13.5). Mas tudo o que eles falavam tinha o condão de desanimá-lo cada vez mais. Era o “empurrãozinho” de que precisava o sofrimento para ser completo e avassalador.

Ainda hoje, há muitos “amigos de Jó” de plantão. Se acontece alguma tragédia com alguém, logo se perguntam o que teria favorecido tal situação, para em seguida arriscarem veredictos de supostos pecados, como se fossem verdades proféticas. E o resultado de palavras insensatas e cheias de juízo é sempre negativo e dolorosamente constrangedor.

Porém, na maioria das vezes, tudo o que a pessoa sofredora precisa é de uma presença amiga que não julgue, de um ombro amigo que deixe chorar, de atitudes que falem mais do que palavras. Quando você não souber o que dizer, apenas ore. Não diga tudo o que sabe, porque quem diz tudo o que sabe, muitas vezes acabará dizendo o que não sabe; ou então, quando for mais preciso, não saberá o que dizer.

Saiba que, na maioria dos momentos de grande dor, as palavras pouco representam. A não ser, obviamente, que Deus fale diretamente dentro da situação e traga o Seu conforto de um modo que só a Ele compete.

Desse modo, na próxima vez em que estiver com pessoas que estão enfrentando o sofrimento, deixe que a sua presença seja o conforto, deixe que sua atitude de solidariedade fale mais alto que suas palavras. Talvez seja a sua presença tudo de que se valerá o Espírito Santo Consolador para trazer conforto aos quebrantados de coração e força interior aos esmagados pela insolência de uma dor que não passa. E isso, quando as palavras não dizem tudo, com certeza é muito melhor.

Samuel Câmara
Pastor da Assembleia de Deus em Belém

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