Davi fora expulso de seu lar e de sua herança e, caçado como animal pelo hostil rei Saul, mesmo em meio a todas as agruras de sua fuga alucinada para salvar a própria vida, seu maior anseio era manter comunhão com Deus. Chegou mesmo a invejar as aves no aconchego de seus ninhos e também aqueles que podiam se acomodar nas celebrações na “casa de Deus”. Seu coração clamava ao Deus vivo, pois cria sinceramente que sua força estava em Deus somente, conforme escreveu: “Bem-aventurado o homem cuja força está em ti, em cujo coração se encontram os caminhos aplanados, o qual, passando pelo vale árido, faz dele um manancial; de bênçãos o cobre a primeira chuva. Vão indo de força em força; cada um deles aparece diante de Deus em Sião” (Sl 84.5-7).

O Salmo 84 tem sido chamado a “A Pérola dos Salmos”, tendo o primor de revelar o estado do coração de Davi em face às provações e tentações que sofria em sua peregrinação pelo deserto. Em vez de queixar-se de Deus pelas enormes adversidades pelas quais estava a passar, ou simplesmente desistir da sua fé, aqueles incidentes do exílio, que certamente lhe dilaceravam o coração, extraíram-lhe da alma o lirismo e a poesia dessa “Pérola dos Salmos”, traduzidos em sua confiança inabalável em Deus. Ele tornou, enfim, suas lágrimas em um motivo de beleza, transformando aquela tribulação terrível em uma celebração ao Deus vivo!

 Se nos lembrarmos de como são feitas as pérolas, a analogia assume significado mais elevado ainda. A pérola é produzida na ostra pela intromissão de um corpo estranho, um cisco qualquer, que interfere no metabolismo do animal. Para defender-se, a ostra segrega um líquido que circunda o corpo estranho e que, mais tarde, se solidifica: é a pérola. As tentações e provações de Davi diante de sua confiança inabalável em Deus nos legaram uma pérola de grande valor, fazendo-o sair aprovado e vitorioso no final.

Na vida, as provações e tentações são testes de uma realidade inescapável, algo inerente à própria vida humana. E algo que precisa ser entendido a respeito de tentação e provação é que estas são dois lados de uma mesma moeda. No grego, uma só palavra expressa ambos os conceitos. Mas há uma diferença fundamental entre ser tentado e ser provado.

Alexander Maclaren, esclarecendo essa diferença, diz que a tentação é uma apelação para a pior de uma pessoa, com o desejo de que se submeta e faça o que é errado. A provação, por sua vez, significa um apelo à melhor parte de uma pessoa, com o desejo de que ela resista. A tentação diz: Faça isso porque é agradável; não seja impedido pelo fato de ser errado. A provação diz: Faça isso porque é nobre e certo; não seja impedido pelo fato de ser doloroso.

        Desse modo, uma pessoa sofre tentação quando esta busca em si uma disposição de ânimo para praticar coisas erradas ou censuráveis. Alguém é provado quando enfrenta uma situação aflitiva ou penosa, que geralmente o atormenta, aflige e martiriza.

         Podemos encontrar esses dois exemplos em grandes homens.

         O próprio rei Davi foi tentado quando viu Bete-Seba tomando banho num riacho. Sucumbiu. Dele saiu o pior, providenciou para que o marido dela fosse morto, para encobrir o próprio pecado. Quanto sofrimento adveio disso! Dali brotara um homem de coração inseguro e ardiloso. Lembremo-nos que anos antes, quando jovem, foi provado ao ter de enfrentar o gigante Golias. O exército de Israel fora intimidado por quarenta dias, ninguém se habilitara à luta. Davi ousou confiar apenas no Senhor. Venceu! Ali nascera um destemido e valoroso guerreiro, que veio a ser um grande rei.

         O patriarca Abraão, no Egito, foi tentado a mentir que sua bela esposa Sara era sua irmã, pois temia ser morto. Dele brotara o pior. E quantos problemas enfrentou por isso! Anos depois, enfrentou uma dura provação. Deus lhe pedira que oferecesse o seu filho Isaque em holocausto. Ele resolveu obedecer. Deus havia dito que a sua descendência através de Isaque seria numerosa. Ele cria que Deus poderia ressuscitar o seu filho de entre os mortos. Isso o habilitou a se tornar o “pai de todos os que creem”.

Observando o exemplo de Jesus, de quando Ele foi tentado por Satanás quarenta dias no deserto, vemos que Ele resistiu e venceu. Com isso, se habilitou a nos ajudar, como está escrito: “Porque não temos sumo sacerdote que não possa compadecer-se das nossas fraquezas; antes, foi ele tentado em todas as coisas, à nossa semelhança, mas sem pecado” (Hb 4.15).

         No jardim do Getsêmani, Jesus foi provado. Ele estava para se oferecer como sacrifício para a nossa salvação, receber sobre si todos os pecados da humanidade, se tornar Ele próprio pecado; isso quebraria a comunhão eterna com o Pai e Ele teria que provar a morte. Em agonia, pediu ao Pai que fosse passado de si esse cálice; todavia, resolveu obedecer a vontade de Deus: “Faça-se a tua vontade”. O mundo nunca mais foi o mesmo depois dessa decisão.

         Assim é a vida, com suas tentações e provações, que acometem a todos indistintamente. Mas principalmente os líderes devem tomar cuidado com as respostas que dão às tentações e provações da vida, pois tudo o que eles fizerem repercutirá nas gerações seguintes.

Há aqueles que começam bem, mas não sabem como terminar. Iniciam a vida sofrendo muitas provações e tentações, mas não se corrompem, não fazem alianças espúrias, vivem com fidelidade, mesmo expostos a um ambiente eivado de corrupção. Mas depois, tentados pelo poder, resolvem ceder, deixando o rastro de um caminho tortuoso que nunca será esquecido.

         No Brasil de hoje, ser fiel a Deus é um artigo cada vez mais raro. Mas eu conclamo a todos indistintamente a serem fiéis a Deus; em vez de confiarem no homem que falha, confiem no Cristo que venceu todas as tentações e provações. Só Ele poderá nos ajudar a vencer as tentações provações da vida; e depois, nos conceder sua irretorquível aprovação.

 

 

Samuel Câmara

Pastor da Assembleia de Deus em Belém

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